TUDO SOBRE:A CANEJA D’INFUNDICE

TUDO SOBRE :

A Tradição gastronómica da Ericeira

 

  • Para os muitos leitores que desconhecem e, até têm curiosidade em saber o que é a Caneja d’Infundice aqui vai o que encontrámos no Site da CMM que descreve bem e rapidamente o que é este prato típico da Ericeira

Se tivermos de classificar a caneja d’infundice no ranking das mais estranhas refeições do mundo, certamente que a tradição exclusiva da Ericeira ocupará um lugar destacado.

Esta receita de caneja (peixe da família do cação) caracteriza-se precisamente pelo significado que encontramos no dicionário para a palavra infundice: “Barrela em que se demolhava a roupa muito suja para depois se lavar mais facilmente.” Não deverá ser literal a interpretação destas palavras, mas é mesmo esse odor amoniacal do peixe que esteve embrulhado em panos, segundo fontes locais, pendurado, guardado em local escuro ou até mesmo enterrado, entre 7 a 15 dias, que lhe confere características excecionais depois de cozido.

Segundo os apreciadores, o aroma intenso é compensado pela qualidade, textura e sabor de um petisco que deverá ser acompanhado por vinho tinto a cada garfada para manter a tradição e ajudar à deglutição. A guarnição é simples: batata cozida, com pele, cortada ao meio. Não desistir à primeira é uma regra de ouro para quem prova esta iguaria. Com o objetivo de garantir a continuidade da tradição e democratizar o acesso a este raro petisco, está em fase de constituição, na Ericeira, a Confraria da Caneja d’Infundice. 

Ainda acrescentamos, esclarecendo muitos leitores:

A LENDA DA CANEJA D’INFUNDICE

Quem conta um conto acrescenta um ponto…Conta-se que um pescador, há muitos anos atrás, apanhou uma caneja (peixe da família do cação) e após lavá-la com água do mar, embrulhou-a num jornal, colocou-a juntamente com os apetrechos da pesca num balde e arrumou a um canto em casa.

Passados que foram duas semanas, voltou a mexer no balde e lá estava o embrulho esquecido. Ao abrir o forte odor a amoníaco foi a maior surpresa …estará o peixe estragado para deitar ao lixo?  “ . A vida naquela altura não era fácil e nada de deitar fora…e  em vez de deitar o peixe para o lixo, o pescador experimentou  cozê-lo… e ao prová-lo terá concluído que o sabor não era desagradável, o peixe estava riginho e branco como o fresco, apesar de aroma muito intenso, mas que no fundo até não era mau.

Com batatas cozidas a acompanhar, bem regadas a azeite e vinho tinto, o pescador até convidou amigos a provar, que apadrinharam o nome no imediato d’infundice tal como alguns caçadores apreciam a perdiz cozinhada após caçada, ter sido enterrada pelo menos cerca de quinze dias…

 

O  PRATO E A SUA CONFECÇÃO:

A caneja, da família do cação, é um peixe com o qual se confecciona na Ericeira um petisco único no país e não aconselhável a palatos sensíveis, constituindo assim uma raridade gastronómica. A dimensão ideal da caneja ronda os 40/ 60 cm.

Retiram-se- a cabeça e as barbatanas da caneja, que não são aproveitadas; depois de estripada é muito bem lavada com água salgada, corta-se em postas presas ou ligadas pela barriga ou ventrejas, lavando-se (de preferência com água do mar limpa), salpicando-se com um pouco de sal, e após escorrida a água, até secar o máximo – coloca-se um pouco de sal entre as postas e um pedaço de pano entre as mesmas, de modo a não tocarem umas nas outras. Este pano branco e limpo, é tipo ligadura mas de pano, que envolve a caneja como se fosse embrulhada. Depois faz-se um embrulho de papel jornal onde se escreve a data para não esquecer. Ainda para evitar moscas, coloca-se dentro de uma saca de serapilheira, pendurando num local escuro e fresco.

Ao final de quatro a cinco dias, o embrulho deverá ser reaberto, mudando todos os panos, e colocando-a de novo em “repouso”, até à altura desejável. 15 dias, ou mais dependendo de mais ou menos infundice. Isto tudo dentro da boa época que é entre Outubro e Março.

Coze-se em água com sal, é acompanhada com batata cozida com pele, cortada ao meio e temperada com azeite. Quando bem curtido, o peixe é branco e rijo (nada espamacento) apresenta reflexos de madrepérola. O azeite torna-se branco em contacto com a caneja cozida e esta exala um acentuado aroma e travo amoniacal que provoca a oclusão das fossas nasais no céu da boca. Acompanha-se com vinho tinto, o qual, por pior qualidade que tenha, fica com um sabor adocicado como se se tratasse de um vinho adamado.

Desde o preço que sobe face à procura de inverno, aos que adoram e aos que odeiam…é uma tradição e um petisco diferente e apenas para quem gosta.