A VULGARIZAÇÃO DA MORTE

Quem vai a seguir?

Morreu. Fez-se o enterro e vamos andando.

Chiça, diz-se: Ele ou ela que espere lá por mim sentada e por longo tempo.

Na verdade ninguém hoje liga a importância de uma vida… se foi bom ou mau, se deixou algo para um mundo melhor…pouca ou nenhuma importância tem.

Hoje e eventualmente ontem, embora a tradição obrigasse a outras teatralidades. O sentimento das pessoas não se altera ao correr dos dias ou modas. Sempre foi assim, mas disfarçavam com um luto bem negro.

 

Se a família do infeliz é importante, todos vão ao funeral para se mostrarem e verificarem quem lá está…até se contam boas anedotas num qualquer recanto.

Não há interesse nenhum nestas cerimónias. Cada vez mais exclusiva dos mais íntimos e dependentes. Até em vez da noite toda de companhia ao morto, a porta tem horário, e já vai tudo dormir a casa.

 O problema maior é quem paga a despesa. Ou o que o morto deixa e para quem. Se for um ilustre teso nem esse problema é colocado.

Trata-se de um tema que ninguém fala. Mas nesse dia ainda vem à tona da conversa a ideia de que devemos gozar a vida que dura pouco e permitimos, sem explicação, nesta passagem curta pela vida, tantas ambições de casas palacianas e automóveis de luxo, tantos ódios e tantas ralações de problemas que cá ficam mesmo aqueles que retiraram dias e dias de sono, e apesar disso sem solução.

Como diria o outro- Se o problema é o dinheiro- como não tenho- não tenho problema!

Problemas que só são importantes até não haver solução. Aí, deixam de ser realmente importantes, pois aparecem outros que retiram essa importância.

E outros aparecem para ocupar o lugar do morto, num contínuo, e sem intervalos para a publicidade, e cadenciado funcionamento daquilo que chamamos a vida.

A viúva casa outra vez, o filho arranja um novo pai, o patrão um novo empregado e assim tudo distraído nada se ralam, até uma nova morte que pode ser exactamente… a sua.

 

Uma opinião de Helder Martins