Uma lição de vida.

Fomos convidados esta semana para ir a uma homenagem ao Mestre pintor surrealista Cruzeiro Seixas, num auditório duma famosa firma de advogados de Lisboa.

Após ouvirmos o elogio à obra do mestre efetuada por um famoso causídico, que falou das primeiras ilustrações que viu do mestre, ao ler um livro de Natália Correia autora de que recordou também outra obra, a antologia de contos eróticos que coordenou e que constituíram um sinal de viragem no Portugal Salazarento da década de sessenta do século passado, e de ouvir as breves palavras da ministra da cultura, que agradeceu ao Mestre e aos intelectuais do seu tempo, o facto de pelas suas diferentes visões estéticas e éticas, terem permitido construir o Portugal Contemporâneo, aberto, desempoeirado e plural, onde ela sublinhou orgulhar-se de viver e de poder afirmar a sua sexualidade, ouvi atentamente o mestre na sua proveta e sapiente idade de cerca de noventa anos.

No seu discurso o mestre relembrou com carinho a sua mãe e as dificuldades financeiras com que se debateu ao longo da sua vida, afirmando que nunca pôde participar em tertúlias nos cafés de Lisboa, como os seus colegas, por necessitar de um emprego fixo para se sustentar a si e à família, e que quando a maioria dos seus colegas rumou a Paris, cidade luz e farol cultural da altura, ele teve de emigrar para África onde teve empregos modestos, mas que lhe davam o suficiente se sustentar a si e aos seus.

Dos vários empregos que teve recorda que aproveitava todo o tempo para dentro das gavetas fazer os seus bonecos, Dom com que nasceu, ao abrigo do olhar dos chefes, e com o tamanho e material que tinha à mão e que nas gavetas coubesse, razão pela qual a sua vasta obra é constituída, na sua maioria por quadros de reduzidas dimensões.

O mestre dos mestres terminou agradecendo a homenagem, referindo-se à sociedade atual num tom crítico, sublinhando não a entender por esta obedecer quase exclusivamente ao Deus Dinheiro, levando as pessoas a serem gananciosas e a deterem bens materiais desnecessários e supérfluos, sinal em seu entender de parolice, sublinhando que por não ter capacidades de negociante, ser um mero fazedor de bonecos, tinha oferecido a maior parte das ora suas valiosas obras aos amigos e conhecidos, e que por causa delas recebia hoje várias homenagens.

Esta crítica aos falsos valores contidas nas palavras do mestre não deixou, em nossa opinião, de ser um pouco fora de contexto, embora pertinentes, por terem sido ditas num faustoso auditório de uma conceituada firma de advogados de avultados negócios, que foram os anfitriões da homenagem.

A humildade e o elogio ao trabalho, à modéstia, à moderação e à contenção, manifestadas por um dos maiores pintores vivos, que se considerou simplesmente como alguém dotado para fazer bonecos, tocou-nos profundamente, e fez-nos repensar nos verdadeiros valores e nas verdadeiras aspirações que deveremos querer almejar, pois como sublinhou o artista, génio no panorama nacional só houve um Camões, que interpretou como ninguém a alma e a gesta lusitana.

Nuno Pereira da Silva

Coronel de Infantaria na Reserva.