Desporto

O TALENTO MORA NO OESTE

Fomos ao encontro da Ana e do David, artistas do “Circo de Sonho” que partilharam connosco o que está a ser e o que aspiram que venha a ser esta participação no “Got Talent Portugal 2020”.

Abriram-nos a porta para podermos ter uma pequena conversa e recolhermos algumas imagens do seu treino para a grande noite de decisões no próximo dia 7 de Junho.

Quem são afinal a Ana e o David de que tanto temos ouvido falar?

DAVID:

“Eu sou o David, natural de Monte Bom /Ericeira comecei a treinar  ginástica desde os 6 anos, comecei como atleta de trampolins, à posteriori comecei a treinar acrobática e com o desenrolar da acrobática a “volante” que eu tinha na altura começou a ficar muito pesada, então o que é que nós optámos, para não trocar de “volante”, pois gostava muito de treinar com ela, começamos a adaptar para as forças combinadas, que usa mais o equilíbrio do peso e para a acrobática precisava mesmo de uma “volante” mais levezinha e como ela já estava praticamente com o mesmo peso que eu e mais alta que eu tivemos de adaptar as figuras e começamos a fazer então “Forças combinadas” e daí a minha paixão por forças combinadas. Entretanto a minha“volante” e bem, foi treinar para o GCP e é quase campeã Mundial, está apurada para os mundiais, vamos ver como é que corre uma vez que agora está tudo suspenso.Quando ela foi embora comecei a treinar com a Ana.”

ANA:

“Eu sou a Ana, sou de Santo Isidoro/Ericeira, o meu trajeto na ginástica começou muito tarde, quer dizer eu nunca pratiquei ginástica, comecei a fazer artes circenses aqui na Associação, comecei pelo trapézio, pelos aéreos no geral, trapézio a Lira depois comecei a treinar várias coisas mas nunca me dediquei muito à ginástica. Entretanto,quando o David ficou sem a “volante” achámos uma boa ideia começarmos a treinar juntos, sempre adorei acrobática e “forças combinadas” só que nunca tive oportunidade de treinar com ninguém porque aqui também não havia ninguém, rapazes, e juntámos o útil ao agradável, ele não tinha ”volante”, eu não tinha “base” e foi aí que começou a nossa história.”

A Associação de Moradores de Ribamar dá-vos apoio?

David:

“Sim sim, temos bastante apoio da parte da direção e dos treinadores, a própria direção gosta que nós mostremos o que fazemos porque não só nos dá valor a nós como à própria associação e como temos também ginasta de competição e classes de exibição, acho que a associação apoia-nos bastante e isso é muito bom”

E o “Circo de Sonho”, o que é concretamente?

David:

“Circo de Sonho” aconteceu um bocadinho com o Paulo. Foi o Paulo Figueira, nosso treinador, que o criou. O Paulo já pertencia ao Circo e aproveitou as nossas “Forças combinadas”, que ele próprio também tinha feito, trapézio, tinha também um cão amestrado, eu comecei a fazer “malabarismo” de staff, ou seja entre todas as qualidades que nós tínhamos, incluindo a Raquel que faz equilibrismo em Mãozotas, pinos, o Paulo optou por criar o “Circo de Sonho” que fugia da ginástica e estava orientado para o Circo era esse o objetivo dele. Sair da vertente gímnica, para criar espetáculos de circo. E fez este projeto que é espetacular.

A vossa a apresentação é um misto de Dança com Ginástica?

David:

Nós usamos a ginástica, que é o nosso foco, ginástica acrobática – forças combinadas, e depois usamos a dança. Forças combinadas é aproveitar o peso dos dois para fazer o equilíbrio da figura, enquanto que na acrobática a “volante” é levezinha, basicamente ela tem de ficar estática e o “base” equilibra, não só pois também depende da figura mas a grande diferença é essa. Em termos gímnicos a grande diferença é que a “força combinada” é uma vertente mais circense e a Acrobática é uma vertente totalmente gímnica.”

Para a vossa participação no “Got TalentPortugal” tiveram de adaptar ou se fosse um número para o “Circo de sonho” seria exatamente o mesmo esquema?

Não, a diferença para o PGT são as câmaras, temos de pensar que há planos curtos, as expressões têm de ser mais vividas, que o publico de longe não se apercebe, mas como há a câmara temos de trabalhar mais um bocadinho a expressão.

Para isso tiveram ajuda?

“Sim tivemos ajuda da produção. Lá mesmo no palco. Até porque houve vezes em que tivemos de adaptar o esquema para os ajudar a trabalhar com as câmaras. Os tempos eles não podem mexer pois se nos mudam os tempos pode dificultar, então tem de ser uma ajuda mutua, nos temos de ceder em algumas partes para eles poderem trabalhar com as câmaras e tirar os planos que eles precisam e eles têm que nos deixar fazer o trabalho que nós temos pois fazer um esquema não é assim tão fácil e se á ultima da hora nos dizem para alterar algo torna-se complicado, mas há pequenas coisas que sim temos de alterar e ceder”

Por exemplo o contacto com as câmaras não é algo comum na vossa atividade, trabalham mais diretamente com o publico?E esse processo é enriquecedor?

Ana:

“Sim eu acho que todo este percurso foi enriquecedor por todos os motivos. Primeiro porque é sempre uma experiência diferente daquela que estamos habituados e com a qual aprendemos imenso, cruzamo-nos com outros artistas e aprendemos com eles de certa forma. Temos de gerir as coisas de maneira diferente é, pelo menos para mim muito mais stressante porque é muitas câmaras, muita gente a ver é toda a televisão, esse controlar dos nervos também é só por si uma aprendizagem, em termos de adaptar, agora até estamos sem publico, na 1ª audição tínhamos imenso publico e de certa forma esquecíamos que estávamos na televisão, porque estamos habituados a trabalhar em palco com publico e nisso não mudou muito e mesmo estando lá a câmara eu não olhava muito para elas e pensava no esquema e no publico. No caso das semifinais as coisas mudaram um bocadinho e aí sim tínhamos de nos focar completamente na câmara, porque não tínhamos publico no estúdio, o único publico era a produção e os júris. Aí foi um bocadinho diferente do que estávamos habituados, já não tínhamos as palmas, os olhares a emoção do publico, isso foi um bocadinho complicado, porque é sempre diferente a adrenalina proveniente das palmas, do público, alimentamo-nos muito do facto das pessoas ficarem surpreendidas, comentarem. Essa foi a parte mais complicada de gerir.”

A Final vai ser também sem publico. Isso deixa-vos frustrados, inseguros?

David:

“É como a Ana estava a dizer, é muito importante para nós o ouvir as palmas para sabermos se está a correr bem, se as pessoas estão a sentir aquilo que estamos a querer transmitir e não ouvir essas palmas faz com que nos tenhamos de focar mesmo no esquema e pensar que as estamos a ouvir, senão o nosso próprio sentimento do esquema foge um bocadinho e por isso temos de estar muito mais focados”

E o júri? É Intimidador?

David:

“Não, não intimida muito, até porque nós quando estamos a fazer o esquema eles estão a observar, mas como o comentário vem depois, falo por mim, mas durante o esquema não associo aquelas pessoas como os que vão efetuar a critica positiva ou negativa e ao pormenor. Enquanto estamos a fazer o esquema estamos a divertir-nos, fazemos e logo vemos o que eles dizem.”

Os treinos, os esquemas, as coreografias, há quanto tempo é que isto já dura?

Ana:

“Na televisão o 1ª casting passou em Dezembro, as audições que foram gravadas, mas anteriormente tivemos um casting através de um vídeo e outro mais ou menos por volta de Outubro/Novembro já não sei bem. Portanto já dura desde aí. As coreografias são montadas e pensadas entre todos, mas maioritariamente é a Patrícia que as faz, A Patricia que coreografa os nossos esquemas e em termos de figuras temos a ajuda do nosso treinador o Paulo Figueira que é a parte mais técnica e depois é uma fusão de ideias, nós vamos pondo as músicas, vamos pensando. A Patricia às vezes vai para casa ouve a música e traz-nos as coreografias que encaixamos com as figuras, acho que a diferença que notei mais agora no PGT, se não fosse a tal “Pandemia”, que tivemos de estar parados, foi mesmo a pressão de saber que temos de ter o esquema acabado e estar perfeito naquela data. Antes também temos de fazer o mais rápido possível porque temos saraus e apresentações, mas por exemplo agora na final é um bocadinho assustador, termos de fazer tudo de raiz, com música, novos objetos, novas figuras, em duas semanas, principalmente porque tanto eu como o David não treinamos durante o dia, isto não é a nossa vida é o nosso hobby. Só podemos treinar depois do trabalho e ainda é mais assustador. Temos ficado a treinar até bastante tarde, ele no dia seguinte vai trabalhar de manhã cedo, portanto tem sido assim uma gestão assim um bocadinho complicada.

Comparando com outros concursos televisivos, vemos que os concorrentes têm ajuda para as etapas seguintes e com o PGT isso também acontece?

David:

“Nós temos o apoio da produção. Estamos em contacto permanente com pessoal da produção que também vai dando ideias, vai propondo as músicas, vai havendo acordo entre nós para ver qual é o tema, quais as roupas, e só mesmo no fim de semana é que chegamos e olhem “o nosso produto é este” vamos trabalhá-lo para melhorar e adequar á vossa maneira de trabalhar.

Isto esteve parado com a pandemia?

David:

“Nós estivemos parados praticamente 2 meses sem treinar”

Quando ganharam a semifinal?Foi um trabalho interrompido pela pandemia?

David:

“As semifinais nós já tínhamos o esquema preparado, antes da pandemia, porque íamos apresenta-lo logo dentro de 2 ou 3 semanas.

Ana:

“Íamos fazer dentro de 2 semanas, ou seja, dia 22 ou 24 de Março era a nossa gala.”

David:

“Nós tínhamos o esquema preparado e depois quando aconteceu a Pandemia nós paramos completamente porque o pavilhão fechou, não há aulas não podíamos estar a treinar juntos. Só quando retomou tudo, o programa disse “é daqui a 15 dias que vamos retomar”, nós nem viemos para a Associação porque o clube estava de prevenção caso fosse necessário para a pandemia, então foi mesmo na minha garagem o que tornou ainda mais difícil o nosso trabalho. Os professores também não podiam estar presentes, já era um risco estarmos os dois juntos, quanto mais ainda com os treinadores. Então foi por videochamada, enviávamos os vídeos para eles verem e foi um bocado complicado”

E ambições neste concurso?

Ana:

“A ambição é sempre ganhar é por isso que lá estamos, mas claro sabemos que é difícil, principalmente porque, eu lembro-me na 1ª audição estar um bocadinho assustada pois fomos para lá cerca das 8h da manhã e atuámos por volta das 23h/00h e eu lembro-me de estar deitada no chão á espera e estar a ouvir que aquele foi campeão mundial, aquele foi campeão europeu, aquele foi medalhado, aquela treina não sei quantas horas por dia e eu estar a olhar e pensar , “ok nós treinamos há um ano juntos, treinamos depois do trabalho” por um lado é assustador por outro lado é gratificante termos a oportunidade de estar a dividir palco, como se costuma dizer, com artistas profissionais que fazem disto vida. Por isso temos, obviamente, de ter o objetivo de ganhar e é por isso que estamos aqui e por isso que estamos a trabalhar, mas por outro lado sabemos que a competição não é fácil, principalmente porque somos dos únicos ou mesmo os únicos que não fazemos aquilo profissionalmente, fazemo-lo como hobby e os outros são bailarinos de profissão, campeões…”

Outro desafio é a diversidade, nem todos apresentam a mesma coisa, uns dançam, outros cantam, outros representam, o vosso esquema é algo diferente?

Ana:

“ Eu acho que também foi isso que tivemos a nosso favor desde o inicio, foi que nós fazíamos o que ninguém fazia, mesmo já se viu lá pares de acrobática e que se calhar fazem coisas muito mais difíceis que nós tecnicamente, são do GCP, são de outros ginásios muito bons, mas acho que uma coisa sempre tivemos a nosso favor, foi a diferença, o que nós fazemos ninguém faz, até podem fazer “forças combinadas” mas  facto de usarmos aparelhos diferentes faz com que seja original e isso foi sempre a nossa luta, avançar o programa e surpreender cada vez mais e ser cada vez mais originais, o facto de misturarmos passos de ballet com “forças combinadas”, materiais não usuais, normalmente usam-se “mãozotas” e pouco mais, nós usamos bancos, cadeiras, agora na final vamos usar novos materiais, que não vamos dizer….portanto sempre foi esse o nosso objetivo que era surpreender e contar uma história e ser o mais original possível para ter alguma coisa de marcante e a nosso favor.

David:

“Ainda respondendo á sua pergunta de como é que é trabalhar com pessoal que faz coisas completamente diferentes, eu acho que aí a dificuldade não é nossa, a dificuldade é de quem vota porque estão a comparar coisas que não são comparáveis. Eu penso, como é que estão a comparar o nosso numero que é de “forças combinadas” com um musico, mas é como digo, não é tanto uma questão nossa, o júri é que tem esse papel difícil de decidir entre coisas que não são comparáveis.

Ana:

“Um colega nosso que estave connosco nas semifinais, é bailarino, estávamos a falar exatamente sobre isso, de ser incomparável um bailarino com um cantor ou um guitarrista, mas ele no fim disse uma coisa que é muito verdade, este programa serve para mostrar arte, ás vezes o que importa não é ganhar mas sim mostrarmos a nossa arte e nisso ele tem razão, porque este programa é muito injusto na relação da comparação mas por outro lado nós estamos todos ali com um objetivo principal que é mostrar o que mais gostamos de fazer, a nossa arte, portanto acaba por ser uma competição boa mesmo que não ganhemos o prémio final, todos nós já enriquecemos por estar a viver esta experiência, principalmente uns com os outros. O ambiente é incrível e nós ficámos todos amigos e há um apoio enorme entre todos nós.”

Mas há rivalidade?

Ana:

“Sim competição há sempre, mas eu não notei isso em nós, claro que não vou dizer que as pessoas que não passaram não ficaram tristes, mas mesmo assim deram-nos os parabéns e sempre que alguém saía de palco, nós não nos podíamos abraçar, obviamente, tínhamos de manter o distanciamento, mas íamos recebê-los sempre ao corredor e temos um grupo, estamos sempre em contacto e nisso acho que também ganhámos imensos laços e assim mostrámos que sim, é uma competição mas uma competição saudável porque demo-nos sempre super bem e aprendemos uns com os outros e foi muito gratificante.”

E depois disto? Independentemente do resultado do concurso, e com esta projeção o que é que esperam que aconteça quer individualmente que em relação ao Circo de Sonho de que fazem parte?

David:

“O mais importante que nós tiramos daqui é mesmo a experiência muito enriquecedora quer a nível pessoal quer ao nível do grupo “Circo de Sonho” e agora a ambição são trabalhos, esperemos contratos, claro que serão contratos sempre condicionados pelo trabalho pois não fazemos disto o nosso modo de vida, ás vezes não é fácil aceitar trabalhos pelo facto de não termos a disponibilidade laboral. Mas sim a ambição é termos mais trabalhos.”

Ana:

“Sim é não parar, e estar em constante evolução, o PGT vai dar uma projeção grande e vão de certeza aparecer pessoas mais interessadas e há muita gente, infelizmente mesmo aqui do Concelho de Mafra que nem sequer sabiam que existia o “Circo de sonho” e isso também vai ajudar, não só nós como par ou individualmente mas sobretudo o grupo em si a ter alguma visibilidade. Saber que estamos aqui, existimos e treinamos diariamente para mostrar o nosso trabalho e gostava imenso que não só em relação a nós mas para o grupo todo nos dessem a oportunidade de mostrar para que é que trabalhamos e o que trabalhamos para chegar a alguns níveis que se calhar não temos oportunidade de mostrar por variadíssimos motivos. Claro que queremos sempre coisas em grande, evoluir e sair daqui com experiências cada vez melhores, mas só o facto de mostrarmos o nosso trabalho já é muito bom.

Poderiam passar a fazer disto a vossa vida?

David:

“Não, porque apesar de nós gostarmos muito disto, infelizmente e com muita pena minha acredito seja nossa e de todos os artistas do país, a arte em Portugal é muito desvalorizada, não desvalorizada sentimentalmente, mas monetariamente. Não é fácil viver só da arte e temos de jogar pelo seguro, temos de ter o nosso trabalho a nossa fonte de rendimento e fazer como fazemos, por hobby e fazer o melhor que podemos”

Ana:

“Aqui temos objetivos completamente diferentes porque concordo com tudo o que o David disse mas no meu caso eu trabalharia nisto 24h se fosse possível e se tivesse oportunidade de ter algum contrato que me garantisse , tal como o David diz não dá para fazer vida só disto, mas no meu caso que trabalho de casa, se se abrisse uma porta eu era a primeira a ir. Eu faria disto a minha vida.

Mensagem final da Ana:

“Acho que acima de tudo agradecer todo o apoio que temos tido, porque as pessoas no geral, conselho de Mafra e não só, amigos, familiares, até pessoas que não conhecemos, isso é ainda mais gratificante, tem dado apoio, mensagens de força. A família e os amigos estamos sempre á espera que nos apoiem, agora as pessoas que não nos conhecem mandarem mensagens a dizer que se emocionaram, que adoram ver, que votaram, esta é a parte mais gratificante disto tudo. É o sentimento de dever cumprido e o melhor que levamos desta experiência.

Mensagem final do David:

“Não me sinto incomodado passar a ser reconhecido, até pelo contrário, é bom sentir o apoio das pessoas e até pessoas que não nos conheciam não faziam a mínima ideia de que nós fazíamos e isso é fantástico.

No próximo dia 7 de Junho, vamos estar todos de olhos postos no pequeno écran a apoiar a Ana e o David, criando por certo uma corrente positiva muito forte que os irá ajudar a alcançar os seus objetivos. Penso que não me enganarei se disser que toda a população do concelho de Mafra está agradecida pela representação de excelência que têm feito da nossa zona.

Bem hajam, parabéns e toda a sorte do mundo para a grande final.

Fotos: KPhoto

Entrevista: Carlos Sousa

Transcrição e composição de texto: Adília Louro

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Carlos Sousa

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