O “DOENTE” AINDA ESTÁ VIVO MAS JÁ LHE PASSARAM A CERTIDÃO DE ÓBITO

 

Será que o conjunto histórico de Venda do Pinheiro estará mesmo destinado a ruir,

apagando “memórias coletivas” de séculos?!

Trata-se de uma propriedade privada, em parte alugada à EDP (anteriormente

CRGE, “companhias reunidas de gás e eletricidade”), que não tem feito

manutenção, nem lhe tem dado qualquer utilização nas últimas quatro dezenas de

anos.

Começou por se assistir ao uso indevido das instalações por parte de marginais,

vandalismo na capela, roubo de equipamento e degradação do edificado pela

passagem do tempo e falta de obras de manutenção.

O inquilino estará, alegadamente, em tribunal com processo judicial intentado pelo

senhorio, precisamente pela falta de manutenção do edifício.

 

Em finais de agosto, do corrente ano, vários operários estiveram por lá retirando

entulho, entaipando janelas e fechando portas, no que pareceu um sinal positivo

para os que desejam ver aquele conjunto recuperado.

Em princípios de outubro a esperança renasceu para os pinheirenses que – tendo a

plena consciência de que se trata de uma propriedade privada, consideram

contudo que aquele edificado é uma importante memória coletiva que gostariam

fosse devidamente preservado e utilizado – ao verem de novo atividade dessa vez

com pessoal especializado e máquinas e a presença de GNR para controlar o trânsito.

 

Mas ao invés do que se esperava limitaram-se a colocar uma rede junto aos beirais. Para quê?!

Dois construtores civis, com quem falei, foram unânimes na resposta: “Para que os

telhados possam ruir em segurança”.

Ou seja a rede terá apenas por função evitar que, quando o telhado desabar, as

telhas não caiam na rua em cima dos transeuntes ou em viaturas estacionadas ou

em movimento.

Trata-se de uma prevenção de acidentes e não de obras de recuperação.

A ser verdade que vão deixar cair tudo, desculpem a dureza da expressão, é um

crime contra o património edificado e contra a memória e história desta terra.

 

O presidente da Câmara Municipal de Mafra, Engº Helder Sousa Silva – que não tem

qualquer jurisdição sobre estes edifícios, mas que é sensível a estas questões, como

prova o seu ainda curto mandato onde tem conseguido gerar consensos, assinar

protocolos – não poderá tentar mediar este difícil conflito entre senhorio e

inquilino e lançar pontes de entendimento entre as partes?!

Claro que para que isso aconteça terá de haver concordância das partes.

A EDP, através da Fundação EDP – que, entre outras coisas, com o “Programa EDP

Solidária” apoia projetos meritórios nas áreas da solidariedade social e da saúde, e

que têm como objetivos a melhoria da qualidade de vida, em particular de pessoas

socialmente desfavorecidas, e a integração de comunidades em risco de exclusão

social – tem ali um bom espaço sob a sua tutela para desenvolver iniciativas

solidárias e outras, sozinha ou em colaboração com instituições locais, assim a EDP

queira.

Este conjunto é a primeira imagem do concelho que os visitantes, que entram pela

Venda do Pinheiro, encontram logo a seguir à rotunda do pinheiro e que é

constituído basicamente por três edifícios.

A capela de Nª Senhora de Monte Carmo e Stº António, cuja construção foi

autorizada em 10 de setembro de 1732, tendo sido oficialmente benzida pelo

padre Manuel Rodrigues Lameira após autorização, de D. Francisco, cardeal

patriarca de Lisboa, em 26 de fevereiro de 1762.

Ali se casaram em 22 de julho de 1906 os proprietários mais recentes, Acrísio

Canas Mendes com Emília Canas, ambos já falecidos, e que foram muito amigos da

terra fazendo várias doações. Naquele local, antes e depois, celebraram-se missas,

muitos outros casamentos, batizados e velórios.

A capela foi o centro católico de Venda de Venda do Pinheiro e arredores, com festa

anual no último fim-de-semana de agosto em louvor de Nª Senhora de Monte do

Carmo, até à bênção da igreja paroquial dedicada a santo António.

Esteve integrada na Paróquia do Milharado até 1967, passando a ser sede oficial da

Paróquia de Venda do Pinheiro, em 24 de abril de 1995, transferida dias depois, a

28 de maio desse ano, para a nova Igreja Paroquial, benzida nessa data por D.

António Ribeiro, cardeal patriarca de Lisboa.

Depois disso, e ainda durante algum tempo, a família Canas emprestou a chave da

capela (que, recorde-se, esteve em uso eclesial durante várias gerações, mais de

230 anos) para algumas celebrações, velórios e até sessões culturais organizadas

pela Santa Casa da Misericórdia de Venda do Pinheiro, mas dadas as más

condições, que ia apresentando, deixou de ser utilizada.

Além da capela, que ocupa o lugar central, há um edifício, à esquerda, que foi

estalagem, sendo mais tarde utilizado por dois colégios privados, o “Frei Luiz de

Sousa” e posteriormente pelo “Colégio O Condestável” que teve na sua direção o dr.

João Soares, pai do dr. Mário Soares, antigo presidente da república, que em

criança ainda ali estudou.

O andar térreo era utilizado como ginásio e posteriormente sala de bailes e de

cinema.

O edifício do lado direito era destinado aos serviços de apoio, nomeadamente

como refeitório e dormitório dos alunos internos tendo sido utilizado, na última

fase de ocupação até aos anos 70 do século passado, como colónia de férias dos

filhos do pessoal das CRGE “companhias reunidas de gás e eletricidade”, atual EDP.

Neste momento nada se sabe sobre o destino destas instalações, apenas se escuta a

preocupada “voz do povo” lamentando que este conjunto de três edifícios esteja há

dezenas de anos sem utilização, degradando-se a “olhos vistos”, alegadamente por

falta de entendimento entre senhorio e inquilino.

Desconhece-se igualmente se os proprietários desejam preservar este “legado

histórico” ou se também lhes interessa que se desfaça em ruinas, para ser vendido

mais facilmente para novas construções.

O certo é que o “doente” embora em estado grave ainda está vivo, mas a “certidão

de óbito” já foi passada, com a colocação da tal rede junto do beiral para evitar que,

quando desabar o telhado, que apresenta deformações bem notórias, as telhas não

caiam no passeio, causando eventualmente algum desastre.

Anseia-se por um “milagre”… de bom senso.

Colaboração de Nunes Forte

texto e fotos

Leia também na edição em papel com mais fotos