Mafra e o 25 de abril

Mafra e o 25 de abril

Fomos promovidos a alferes do Quadro Permanente em 1985, sensivelmente uma década depois da revolução dos cravos, e na Escola Prática de Infantaria primeira unidade onde fomos
colocados, existiam ainda muitas recordações imateriais da revolução, que se perpetuavam na memória e nas histórias que ouvíamos dos oficiais mais antigos, que tinham sido subalternos e capitães no dia da revolução e no período revolucionário que se lhe seguiu.


Recordo-me das histórias do Coronel Rodas, que com o seu pelotão anti-carro da Companhia de Apoio de Combate armado de Canhões sem Recuo de 10,6 mm, tomou de assalto o aeroporto de Lisboa, e das histórias de outros oficiais como a que contava o Coronel Henriques que com a sua habitual verve nos encantava narrando as reuniões conspiratórias passadas na casa de seus pais algures na linha de Cascais.


Recordo-me de nos dias 25 de abril, anualmente, ver a sala de oficiais da EPI repleta de oficiais de Infantaria, que com saudades e alegria se reuniam inexoravelmente à sombra do vetusto e velho calhau ( convento), de onde numa madrugada saíram para tomar Lisboa, sem saber ao
certo se regressavam vitoriosos ao convento de Mafra, se iriam ser presos algures em Peniche ou se seriam deportados para o Ultramar. Da maioria dos nomes dos oficiais que se juntavam anualmente na casa mãe da infantaria portuguesa não reza a história, pois após a revolução continuaram as suas carreiras militares, sem sedes de protagonismo embora orgulhosos da sua atuação que mudou o rumo da história-pátria.


Gostaríamos nesta crónica de recordar em especial, não um oficial, mas um segundo sargento de seu nome Tudela, na altura da revolução com o posto de cabo RD, que durante a preparação do Golpe Militar teve a importante missão de servir de mensageiro, transportando mensagens e
documentos relevantes entre a EPI e as outras unidades do País, facto que permitiu que se conseguisse coordenar a revolução, sem que a PIDE dela tivesse conhecimento profundo, por não desconfiarem que um militar de posto tão baixo pudesse ser portador de documentação tão
relevante.

O Tudela era uma personagem ímpar, ex-prisioneiro na India, promovido a sargento por distinção , que frequentava e mandava na sala de oficiais tratando quase todos os oficiais por tu, que não sendo oriundo do Concelho de Mafra viveu no seu convento, zelando e amando-o até à
sua morte.


Ao, nesta coluna, recordar o Tudela, pretendo recordar todos os militares independentemente do seu posto que na madrugada do 25 de abril saíram da EPI em Mafra, para efectuarem a Revolução, e que após terem feito história regressaram anonimamente às suas vidas.


Nuno Pereira da Silva
Coronel de Infantaria na Reserva