Hepatite C (HEPC)

Panorama HCV: A importância da escolha individualizada dos regimes para maximizar a cura

– Nos tempos recentes houve uma evolução notável no acesso ao tratamento da Hepatite C crónica, com uma expectativa de cura acima dos 90%.

– Cerca de 4.000 doentes estão já inseridos no portal da Hepatite C (HEPC), no site do INFARMED, e a maioria em tratamento ou em vias de iniciarem o mesmo. E isto é fantástico! Sendo tudo isto verdade, é também verdade que a solução disponível não cobre as necessidades de todos os doentes. Gerou-se um pouco a sensação de estarmos perante uma “panaceia” mas a verdade é que cada doente representa uma situação específica e, como tal, “one size does not fit all”. Como em muitas das áreas da Medicina, há que escolher o regime terapêutico, de forma individualizada, por forma a potenciarmos a sua ação. O objetivo é curar!

Existem diversos parâmetros que devem ser tidos em conta na escolha da melhor terapêutica para cada doente. A saber:

a) O tipo de vírus (genótipos);

b)O estadio da doença (grau de fibrose, cirrose);

c) O perfil de resposta a terapêuticas anteriores (por exemplo “maus” respondedores:

nulos, parciais, recidivantes, etc);

d) Existência de co-morbilidades (por exemplo o compromisso renal, as co-infecções, etc);

e) Terapêutica concomitante que possa interagir com o tratamento HCV (por exemplo

os fármacos utilizados no controlo da insuficiência cardíaca, fármacos utilizados no

controlo da acidez gástrica, etc).

As razões que sustentam a importância de podermos escolher entre diferentes opções terapêuticas prendem-se com o nosso objetivo principal: curar!

a) Curar “à primeira” – o retratamento de doentes não é uma opção que apresente resultados ao nível do que consideramos aceitável atualmente. No recente Congresso da EASL (European Association for the Study of the Liver), os dados de retratamento ficam muito aquém dos 90% referidos.

b) Evitar a seleção de resistências (tópico que vai emergir rapidamente). Estas resistências poderão surgir se não adequarmos o regime ao perfil específico do doente (de acordo com os parâmetros acima referidos), originando um grupo de doentes muito difíceis de tratar.

A norma da Direcção-Geral da Saúde, recentemente publicada, ilustra bem aquilo que norteia a comunidade científica: a evidência científica. Nesse documento estão todos os regimes terapêuticos, em função da evidência apresentada para cada perfil de doente. A tal escolha individualizada.

Como Médico, e sei que esta é a opinião de todos os membro da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, no mundo ideal, gostaríamos de dispor das várias opções aprovadas pela EMA, para nesta oportunidade histórica excepcional proporcionarmos a melhor hipótese de cura a todos, sem exceção, à primeira tentativa.

Professor Guilherme Macedo,

Diretor do Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar de São João