Ficar na história

HOJE FALO EU…

Por Helder Martins

 

É o mínimo para quem não conseguiu ficar rico, com o trabalho de tantos anos, e no meu caso, o dobro do comum dos mortais. Explico porquê – nunca tive férias senão com idas profissionais ao estrangeiro, feiras internacionais, congressos, ou trabalho. Depois, nunca tive horários, nem para comer, nem para começar ou terminar. Começava pelas oito da manhã e quando não eram “directas”, terminava lá para as tantas da manhã.

Ora, comparando com quem sai às cinco da tarde, diria eu (como diz o nosso presidente da CMM nos seus discursos, sempre no condicional) que já trabalhei pelo menos o dobro do comum dos mortais.

Mas com tristeza, posso confessar, que apesar de ser sempre bem pago, (quando recebia), nunca chegarei a ser rico com a minha provecta idade, que todos dizem não acreditar ser real. Tal como a “concorrência ingénua” e incapaz de aprender, pois já é velha de mentalidade, duvida que tenha alguma vez tido carteira profissional de jornalista. Esta desconfiança doentia, ameaçando ilegalidade, teria razão de ser, se fosse necessário um curso (nem que fosse por correspondência), mas não. É apenas uma coisa que se compra, e que nada garante. Naturalmente para quem nada teve, talvez seja muito. E tal naif coloca assinatura maior que o quadro, (ou fotos) carimba tudo (como de alto valor se tratasse) teme ser copiado e converte tudo, para evitar roubos e cópias. Tal a sua incapacidade criativa, que vê nos outros, aquilo que efectivamente é, um cabotino. O que é triste é o povo gostar de ajudar estes coitadinhos, dando sempre o benefício da dúvida, tal como o Mestre Alfredo Marceneiro ajudava, embora criticando, e dizia dos novos fadistas “ coitadinhos, eles não sabem…”

Ora por acaso, posso provar, tenho essa carteira, só porque fui em 1986 a um qualquer Congresso cuja entrada era caríssima e se levasse a carteira de jornalista nada pagava. Pois foi essa a única razão que me levou a tirar esse documento, que nunca me fez falta,(em 72 anos e trabalhando com os melhores) nem sequer é obrigatório.

A ideia romântica de ser jornalista, mais repórter, tal como o repórter X, ou outros, de filmes e romances, que fumavam cachimbo e usavam chapéu, era um sonho próprio da minha juventude e das muitas leituras de histórias em quadradinhos que nos faziam sonhar com aventuras policiais tipo Dick Tracy.

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Mas em vez de enveredar pela escrita, caminhei sempre pela imagem, talvez por influência do meu tio MARTINS grande cartoonista/ ilustrador. O caminho não foi fácil, cheio de armadilhas e gente falsa. Contrariedades da família, para tirar um curso superior direitinho e deixar os bonecos. Mas o que será fácil na vida?

Por vezes, e sem querer, comparo a grande facilidade dos jovens de hoje com tudo apaparicado à disposição. Em vez de uma única televisão que havia na altura e onde trabalhei em cenografia, existem três canais, mais os de cabo, mais as empresas de vídeo, na internet, etc. em vertente global, jornais- haviam os matutinos e os vespertinos e contavam-se pelos dedos, hoje são milhares de variadas especialidades.

A frequentar pintura à noite em horário pós laboral, acumulava com trabalho no Diário Popular com José de Lemos, Diário de Lisboa com Prof. Victor da Silva, revista TV, A Capital, O motor e O Volante, com Avelãs Coelho, e a  “Tele-semana” com Duarte Ramos, onde fui fundador e responsável pela imagem gráfica. Não falando nos jornais humorísticos onde colaborei como Os Ridiculos, Mundo Ri, Riso de bolso, Parada da Paródia e por fim A CHUCHA que fui fundador.

A chucha

Naturalmente que não se abriam facilmente as portas para chegar a quem decidia aceitar ou não a nossa colaboração. Era preciso ir à luta…

Mas consegui colaborar e estagiar com Octávio Clérigo na RTP, depois no São Carlos, D. Maria, no ABC, Variedades no Parque Mayer, com Pinto Campos, e na Academia de Santo Amaro com Carlos Avillez no 1º Festival de Teatro, ainda a revista “Arquitectura Portuguesa” com o talentoso Arq. Graça Dias, na Agência Portuguesa de Revistas, com Baptista Rosa, e Crónica Feminina na última fase.

Não esquecendo a coqueluche revista “Portugal Design” que marcou uma época e saiu fora do tempo.

Portugal Design Agora a ser vendida no OLX como preciosidade de alfarrabista

Além do registo do trabalho que fica pela nossa passagem neste mundo, agora que celebrei 72 anos e que vejo a grande maioria dos meus amigos e colegas de trabalho, normalmente mais velhos, pois comecei muito cedo, a desaparecerem da minha Lista Telefónica, riscados e a reduzir as páginas drasticamente, são episódios que recordamos e que ficam na história.

Infelizmente são poucos, mas valem o que valem.

O “CASO A REPÚBLICA” deu azo a mais “Casos”, pouco depois do 25 de Abril acabaram com jornais importantes, por dá cá aquela palha, politiquices e interesses partidários, e o pessoal unia-se revolucionariamente e publicava à sua maneira, com o titulo CASO. O jornal “A república” foi o primeiro a ser editado e fez história, da qual eu sem nada fazer, fiquei com a fama.

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A equipa de redacção ligada ao jornal Diário de Lisboa, com a qual trabalhei no jornal O Volante, tinha nomes importantes, dos jornais, da rádio e da televisão, como Adriano Cerqueira, José Vieira, Nuno Coutinho, Avelãs Coelho, e telefonaram-me para fazer o “Caso a República”, e respondi naturalmente que sim, pouco mais de uma hora passada “fui atacado” com metralhadoras, pelo COPCON, polícia do Major Otelo Saraiva de Carvalho e que me avisou de forma a não esquecer, que destruía tudo, se acaso estivesse a mexer no jornal Republica. Esperava só pelos originais e nada chegou, estava a ser impresso na margem sul, apenas servi para desorientar a polícia da altura, que estava em escuta para quem falasse no jornal Republica. Aliás, éramos conhecidos desta polícia por actos semelhantes, ex. A chucha, O livro da Vera Lagoa e um Livro do Major Sanches Osório, que acabou por ser feito em Espanha.

Outro jornal polémico, e esse, pela fama do Caso República apareceu-me,  e fiz na realidade, foi o “Caso o Século”, quando fecharam o maior jornal português “O Século” eu com a minha equipa, paginei e dei-lhe forma, trabalhando com Roby Amorim, (director do jornal , já falecido) diariamente durante mais de uma semana, só interrompido por algumas horas, para o nascimento do meu filho José, em 16 de Novembro de 1975. Faz hoje quarenta anos.

É de lembrar que o pagamento era feito em moedas, resultado da venda, o que dava um grande saco pesadíssimo e difícil de contar. E não podia ser depositado, pois não podíamos justificar o seu movimento sem a presença da Comissão de trabalhadores.

Curiosamente a nossa segurança era garantida por uma aliança, hoje bizarra, no mínimo, a extrema -esquerda MRPP e o PPD que com mocas e outros acessórios, passavam de dez em dez minutos à frente da nossa porta para saber se havia novidades, e ao lado no café duas portas acima, José Viana cantava com um grupo, cantigas revolucionárias a atiçar à revolta.

saqueta açucarA saqueta era muito semelhante a esta

de um lado SEMPA e na outra face TOFA

 

Outro facto histórico, foi a primeira vez em Portugal que foi feita uma saqueta de açúcar da Sidul que foi criada por mim, não só pelo processo de produção gráfica como a maqueta, debaixo da pressão de uma direcção inglesa clássica, estávamos em finais dos anos 50 começo dos anos sessenta.

Dado que o pessoal achava pouco açúcar dizia-se das iniciais SEMPA (Só Esta Merda Para Adoçar ). E como havia a guerra do Ultramar nos cafés cochichava-se SEMPA (Salazar Envia Militares Para Angola) lido ao contrário (Angola Pede Matar Enraivecidamente Salazar)

Ainda se retirava açúcar à colher, do açucareiro para a chávena do café adoçar. Fui à Alemanha ver as máquinas que pesavam e embalavam o açúcar e cortavam da bobine impressa, as saquetas que hoje são vulgares.

Outros factos históricos, foram os primeiros autocolantes com “o povo unido jamais será vencido” realizados no dia 26 de Abril de 74, e colocar e retocar em arte-final  o logotipo do PPD, e fazer os primeiros autocolantes e bandeiras do partido, em serigrafia, encomendadas por Luis Lagrifa no principio de maio de 1974.

PPD

Falar do antigamente é coisa de velhos, mas sabe-me bem, enquanto cá estamos, falar destas coisas. Que serão esquecidas se não forem lembradas, porque foram muito importantes na altura para quem as viveu…e não serão poucos os que ainda recordam.