Geral Opinião

Eleitores (e) responsáveis, seremos todos?

Nas últimas semanas começaram a sair os resultados macroeconómicos do primeiro semestre de 2020; infelizmente os números não foram animadores e uma vez mais,Portugal caiu para os lugares de maior preocupação. A falta de crescimento económico tem sido uma constante e sempre que o mundo espirra (economicamente falando) Portugal vai parar aos cuidados intensivos.Para piorar a situação, o CoViD-19 veio colocar a nu algumas das nossas fragilidades.Mas será que o nosso desempenho económico, ou falta dele, está relacionado exclusivamente com fatores de localização, descapitalização das empresas e qualidade da gestão?Ou será mais um problemapolítico?

Para responder a esta questão existem dois vértices principais: o eleitor, ou seja, quem elege o seu representante e o político que é quem executa a tarefa de levar avante um programa eleitoral.

Vamos analisar o primeiro vértice, o eleitor português; será este diferente dos demais europeus nas suas escolhas, ou, é ele bastante similar e efetivamente o problema não é a ideologia, mas sim a qualidade do político português eleito,que é incapaz de implementar aquilo a que se propôs. Para responder a estas questões façamos um conjunto de normalizações, sendo a principal, transportar os partidos portugueses para os grupos parlamentares europeus aos quais são filiados. Assim o PSD e CDS pertencem ao Partido Popular Europeu (PPE), o PS pertence aos Socialistas e Democratas (S&D), o CHEGA ao Partido Identidade e Democracia (ID), a Iniciativa Liberal é filiado no Renovar Europa (Renew), o PAN pertence aos Verdes (Verdes/ALE), e o Bloco de Esquerda e PCP pertencem à Esquerda Unitária Europeia (GUE/NGL). Desta forma, conseguimos facilmente realizar comparações entre as diferentes forças políticas presentes a nível europeu e nacional. O seguinte gráfico mostra a distribuição do parlamento europeu (PE) por grupo parlamentar.



Figura 1 – Constituição do Parlamento Europeu (705 eurodeputados) por Grupo Parlamentar (7 Grupos + NI – Não Inscrito)


Numa primeira análise, verifica-se a heterogeneidade do PEque tem o Partido Popular Europeu (PPE) como maior grupo, seguido do grupo Socialista (S&D). Terá a nossa Assembleia da República a mesma heterogeneidade? Olhemos então para os gráficos seguintes.





Figura 2- Constituição da Assembleia da República Portuguesa por Grupo Parlamentar (Equivalente Europeu)

Efetivamente, o parlamento português é muito menos heterogéneo e é constituído por uma forte corrente de esquerda, cerca de 60% ao contrário dos 27% do PE. Podemos também validar, se os eurodeputados portugueses eleitos para o PE têm o mesmo género de representatividade.





Figura 3-Eurodeputados Portugueses por Grupo Parlamentar Europeu

Em virtude da escolha do eleitor português e da limitação a 21 deputados, Portugal contribui uma vez mais com uma fraca diversidade de forças políticas, em tudo semelhante ao cenário nacional.

Se as opçõespolíticas ajudam a identificar o caminho que cada nação quer tomar, na Europa as linhas de liberalismo (Renew), identidade europeia (ID) e ambiente (Verdes/ALE) juntam mais de 34% de representantes no PE;na atual Assembleia da República Portuguesa pouco excedem os 2%. Este facto sugere que a forma como os portugueses têm escolhido o seu destino nas urnas pode estar diretamente relacionado com os resultados económicos, assim sendo, façamos uma análise aos países da UE-27 que em 1995 tinham um PIB per Capita inferior ao português, e neste momento já nos ultrapassaram. Esses países são Lituânia, Estónia, Eslovénia, República Checa e Malta, que contam com um total de 53 eurodeputados.




Figura 4 – Eurodeputados de LT, EE, SI, CZ e MT por Grupo Parlamentar

Ao olharmos para o gráfico anterior, percebemos que o PPE continua a ser a maior força política, mas o socialismo S&D é substituído pelos Liberais Renew, e, também existe por parte destes países uma maior consciencialização das questões ambientais (Verdes/ALE) aquando feita a comparação com a realidade portuguesa.

Ao verificarmos que o desenvolvimento económico nestes países é possível independentemente do ponto de origem, por exemplo a Lituânia e Estónia desde 1995 quase quintuplicaram o seu PIB per Capita, enquanto Portugal ficou por 1,9 vezes,é admissível dizer que as escolhas políticas têm efeito no desenvolvimento de cada região.

Feito este breve caminho de análise, é lícito dizer que no cômputo geral, o eleitor português é substancialmentediferente da maioria dos europeus. Está na hora de cada eleitor não votar apenas na promessa, mas exigir que cada programa eleitoral deva apresentar as contrapartidas. Parafraseando um ex-Ministro das Finanças:“o orçamento de estado não é uma lista de prendas ao Pai Natal”. Cada promessa feita e cada medida tomada que implique uso do erário público tem de ser financiada, ora por dívida pública ora por impostos, sendo que a primeira acaba mais tarde por ser revertida em impostos, naturalmente.

O eleitor pode e deve votar em função daquilo que acredita ser o melhor para o seu país, e deveria ser papel do político apresentar as suas propostas e em simultâneo clarificar como pretende financiá-las porque todos sabemos que “não existem almoços grátis!”.

Ora, Platão dizia: “O preço a pagar de não participar na política é seres governado por quem é inferior”, o que levanta desde já questão, existem seres inferiores?

Fontes:

https://www.europarl.europa.eu/portal/en

https://www.pordata.pt/

https://www.parlamento.pt/

Acerca do autor

Jorge Antunes

Jorge Antunes

Jorge Antunes é atualmente aluno de doutoramento em Gestão de Informação da NOVA Information Management School (NOVA IMS). É licenciado e mestre em Engenharia Química e Bioquímica pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da NOVA, seguido de um mestrado em Gestão de Informação com especialização em Gestão de sistemas de Tecnologias de Informação pela NOVA IMS. Os seus interesses científicos têm-se focado na implementação de modelos preditivos e descritos na área dos sistemas de informação geográficos. Do ponto de vista profissional o seu percurso tem sido pautado pela gestão de informação através da elaboração de projectos de Business Intelligence mas também de técnicas de Data Mining. Ainda no decorrer da sua atividade profissional foi gestor de projectos em particular na implementação de sistemas de CRM para contact center.

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