A cultura e tradição

O  tema que me proponho desenvolver na minha crónica  de hoje, enquanto decorrem as  festas religiosas em honra à Nossa Senhora da Nazaré em Alcainça, é talvez um dos temas mais difíceis de desenvolver, pois como todos os conceitos em ciências humanas, os conceitos de cultura e tradição em particular, são naturalmente contestados, não havendo por isso uma definição consensual.

O conceito de cultura, em particular, tem sido um dos conceitos mais controversos e polémicos,e em que têm ao longo dos séculos surgido mais tentativas de definição.

A definição que vamos adoptar, única e exclusivamente por uma questão de sistematização do pensamento, divide a cultura em dois estratos a cultura erudita e a cultura popular.A primeira mais virada para as elites, que compreende a literatura, a música clássica, e as artes plásticas e cénicas, e a segunda que reflecte os usos e costumes dum povo, no  caso particular de Portugal duma nação, que vão desde a  etnografia, ao artesanato, às festividades religiosas, às touradas,à culinária,e ao fado.

O fado, em nossa opinião, constitui uma forma de cantar peculiar do povo português, que nele exprime de forma sublime o seu sentimento nostálgico a que deu o nome de saudade,que tendo tido a sua origem na época  das descobertas, se enraizou na sua alma,na sua identidade e tradição, devido à constante necessidade, que este tem tido de abandonar o rectângulo para sobreviver fugindo à miséria.

Além do fado é sobretudo nas festividades religiosas que se revela outra forma  de ser do povo português, e da sua  peculiar forma de viver a fé,sem grande profundidade teológica.

Todos as manifestações populares,de que destacámos o fado e as festividades religiosas, fazem parte da idiossincrasia do povo português, da sua identidade, do seu património imaterial, que consubstancia as suas tradições.

A grande diferença entre tradicionalistas e conservadores é que estes últimos, normalmente permitem que as tradições se inovem, se recriem, se modernizem, e que incorporem novos elementos mais adaptáveis aos novos tempos, enquanto que os conservadores o não permitem.

O concelho que habitamos tem um elevado défice, em relação ao que supra referimos como cultura erudita, malogrado possuir um património arquitectónico barroco único e invejável, passível de potenciar este tipo de manifestações culturais, pois por si só têm uma grande capacidade de atracção de públicos, nacionais e internacionais mais eruditos.

 

Nuno Pereira da Silva

Coronel de Infantaria na reserva